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Por Edson Lemes Júnior (Druida das Pradarias)

Capítulo IV:

Encontro com o velho

Tistinis estava extremamente movimentada, a festa(1), que já durava alguns dias, parecia continuar animando os moradores. Vários Bardos tocavam em diferentes locais da cidade, uma enorme feira aproveitava-se do acúmulo de pessoas para vender objetos e animais exóticos. Tudo transcorria de maneira calma. Panthro, após deixar seu cavalo num estábulo, corria atrás de algumas elfas, Golias já estava à devorar um enorme pernil, Gwaine admirava-se ao ver os truques dos ilusionistas, e Lara sentava-se na mesa de uma pequena taverna que dispusera mesas do lado de fora do estabelecimento, para que os clientes pudessem comer e admirar a festa. Uron sentava-se ao seu lado.
Enquanto Lara acalmava-se tomando um ótimo vinho ao lado de Uron, uma voz vindo de trás a fez entrar em estado de alerta.
- Lara, a rainha dos ventos? - a voz era de alguém jovial.
Rapidamente Lara se levantou colocando a mão onde antes estaria sua espada; mas vendo quem a chamava, voltou a acalmar-se.
Um garoto de um metro e meio, cabelos ruivos e com a cara repleta de sardas, a olhava com admiração.
- Você é Lara, não é? – diz o garoto com os olhos brilhantes, esperando uma resposta positiva. - Você realmente existe? Meu mestre fala muito sobre você.
- Sim, sou eu. Quem é seu mestre?
- Ah, eu sabia - gritou o garoto sem ao menos ouvir a pergunta de Lara. - Posso dar-lhe um abraço?
- Claro! - respondeu Lara.
O garoto correu até Lara e a abraçou. Uron sentia algo estranho na inocência daquele garoto, algo que fazia gelar-lhe os ossos. Afinal, o mal podia assumir inúmeras formas. Mas apesar disso, decidiu não dizer nada a Lara, afinal, ele poderia estar enganado.
- Lara, poderia me acompanhar até a tenda do meu mestre? Ele jamais acreditaria em mim se eu contasse a ele que a vi.
Lara volta o olhar para Uron, como se pedisse sua opinião; Uron apenas deu de ombros, entregando a decisão inteiramente para Lara.
- Tudo bem garoto. Como se chama?
- Stéculos, senhora.
- Tudo bem Stéculos, espere eu reunir meus amigos e iremos com você até a casa de seu mestre.
O garoto saltava de alegria e Lara lembrou-se de seu filho, e de quando ele ainda era um simples garotinho. Mas agora ele estava se tornando um homem, e esse pensamento à fez gelar.

Rapidamente Lara chamou Golias, que deliciava-se com um enorme pernil e bebia num grande barriu de vinho. Estava sentado no chão da taverna, pois nenhuma cadeira agüentava seu peso.
Lara dirigiu-se ao balcão e deixou uma peça de ouro ao taverneiro como pagamento para a conta. Este olhou assustado para a enorme quantia de dinheiro, e sorriu ao perceber que a mulher não queria troco.
Panthro não estava muito longe dali, ele enfrentava um elfo em combate aberto. As pessoas faziam uma roda para ver o combate, e entre eles estava Gwaine, admirando as habilidades do amigo guerreiro.
Panthro e o elfo fitavam-se com ódio, do primeiro um filete de sangue escorria no canto da boca, já o segundo estava intacto. Panthro, arremessou-se pra cima do elfo, e este com incrível agilidade, esquivou-se do ataque e contra atacou chutando as costas de Panthro, que quase foi ao chão. Enfurecido, Panthro vira-se rapidamente, mas não vê o elfo e sim Lara parada a sua frente.
- Acabou a brincadeira Panthro, vamos embora. - Atrás dela estava Golias, este segurava o elfo com facilidade, que gritava insultos a Panthro em sua língua.
Todos a volta gritavam pedindo a continuação do combate, mas ninguém ousava se aproximar, afinal, a visão do gigante era algo que impunha respeito até ao mais bravo guerreiro. Até que um elfo bêbado sai correndo do meio de todos com uma espada em punho, ele vem em direção a Lara, mas Gwaine arremessa uma espada a Uron e este desarma o elfo antes que ele consiga sequer aproximar-se. Panthro teve que sair dali quase que arrastado.
Quando já estavam longe da confusão, Lara perguntou a Gwaine:
- Onde conseguiu a espada?
- Foi um presente de Panthro, afinal já sou um homem.
- Você será homem quando eu disser que você é homem, está me ouvindo? E você Panthro, tenho medo de perguntar onde conseguiu esta espada.
- Não enche! - responde Panthro.

O garoto esperava Lara e os outros na frente da taverna, Lara os apresentou a seus amigos e o garoto mostrando sinais claros de alegria, pediu que o seguissem.
O garoto caminhou uns 5 minutos, e a cidade começou a ficar para trás. Uron desconfiado falou ao ouvido de Lara:
- Não acha que estamos indo um pouco longe?
- Acalme-se Uron, ele é só um garoto.
 - É na inocência que o mal se esconde.
Como se ouvisse, ou sentisse a desconfianças de Uron, o garoto diz:
- Meu mestre não gosta de estar em contato com as pessoas, principalmente quando a cidade está em festa. Vejam, a tenda é aquela ali! - ele aponta para uma pequena tenda de couro armada no descampado. Rapidamente ele corre na frente e abre a “porta” da tenda gritando: - Mestre, temos visita!
- Eu já lhe disse que não quero ser... - A voz do velho some quando Lara aproxima-se da porta e se torna visível ao velho homem.
Golias do lado de fora, olha a pequena tenda que mal atingia a altura de sua cintura, olha a sua volta e diz para si mesmo:
- Esperarei aqui fora!
- Lara, me desculpe por não ter nada a oferecer a você e a seus amigos...mas Lara, é você e seu grupo! - O velho parecia estar atordoado com o choque de ver a bela mulher a sua frente, que agora exibia sem constrangimentos a belíssima armadura de ouro alada.

1- Os elfos festejavam a chegada da primavera com a festa conhecida por Lamiauir, ou na língua comum: Chegada das Flores.
A festa durava entre 5 a 10 dias e é realizada entre toda a população da cidade.

A tenda era baixa, o que impedia que qualquer um pudesse ficar ereto. No chão, um tapete vermelho cobria a terra, e uma pequena mesinha encontrava-se no centro da tenda onde o velho preparava algo, mas interrompera o trabalho devido a visita inesperada. Atrás do velho, um pequeno armário com cerca de meio metro guardava poções, frascos e pergaminhos. O velho tinha uma aparência repulsiva, sua pele queimada e enrugada devido a exposição ao sol e aos anos de vida dava-lhe uma aparência de tartaruga. Seu sorriso exibia dentes tortos e podres e um cabelo ralo, branco como a neve, saiam-lhe da nuca e das laterais da cabeça atingindo até a altura dos ombros. Usava uma toga marrom encardido muito envelhecido e desgastado pelo tempo com um cheiro horrível de peixe morto.
- Sente-se! – diz o velho, apontando seu dedo torto e enrugado terminado numa enorme unha enegrecida pela sujeira, para almofadas ao chão. – Stéculos. Pegue algo para bebermos e comermos. – termina o velho assim que todos se sentam.
- Não há necessidade meu senhor. – prontifica-se Lara, na verdade com medo de injerir algo vindo daquele lugar sujo.
- Claro que há necessidade, não é sempre que tenho ilustres na minha tenda e quero proporcionar-lhes uma noite de júbilo para não me esquecerem.
Ao dizer tais palavras, Lara olha para seus companheiros que fazem o mesmo. Então um interminável silêncio se propaga por alguns segundos enquanto o velho os olha atentamente deixando-os pouco a vontade. Até que seus olhos se fixam em Gwaine e ele diz:
- Este é seu filho Lara?
Os olhos do velho parecem brilhar por um momento e ele mostra um longo sorriso repulsivo ao garoto. Uron percebe uma intenção sinistra naquele olhar, mas novamente permanece em silêncio, sua mão desliza suavemente até o cabo da espada que Gwaine lhe deu, pronto para agir se necessário.
Panthro mal ouve o que o velho diz e muito menos percebe qualquer intenção hostil no lugar, a não ser o cheiro insuportável do velho. Seus olhos observam atentamente cada frasco e poção na pequena estante ao fundo da tenda.
Finalmente, após alguns segundos que para Uron pareceram horas, Lara responde a pergunta do velho.
- Sim, este é meu filho Gwaine. – Ao dizer isso, os olhos de Lara instintivamente fitam os olhos preocupados de Uron que parecem penetrar o velho. Então ela segura firme a mão do garoto que parece não perceber nada de errado.
Stéculos havia saído já faziam alguns minutos e ainda não voltara. Lara tentava imaginar o que o garoto estaria fazendo. Mas se sentia segura, pois Golias estava do lado de fora como um poderoso guarda.
Como se lesse os pensamentos de Lara o velho diz:
- Droga! Stéculos está demorando. Como sempre aquele garoto imprestável nunca faz o que eu mando. Lara, não tenho muito a oferecê-la, mas gostaria que aceite esse humilde presente. – ele remexe em uma sacola que estava pousada num canto da tenta e retira um anel de ouro cravejado de diamantes. – Ele pertenceu a minha esposa e gostaria de oferece-lo a você.
- Não posso aceita-lo...
Mas antes que Lara termine sua frase o homem a interrompe.
- Claro que pode, se não aceita-lo me sentirei desprezado, sem ter mais nada tão valioso a oferecê-la. – Ele estica o braço e Lara pega-o das mãos enrugadas do velho. Uron observa cada movimento e aperta ainda mais sua mão ao cabo da espada.
O velho continua após uma breve pausa: - Stéculos está demorando muito. Vou atrás dele para ajuda-lo. Fiquem à vontade.
O velho levanta-se com dificuldade e passa por Uron, Lara, Gwaine e Panthro, retirando-se da tenda. Gwaine tampa o nariz com as mãos assim que ele passa e Panthro num salto rápido, como um felino, atravessa a mesa e chega a estante de poções e pergaminhos. – Enfim sós. – ele diz.
- O que é isso Panthro? – Diz Lara imediatamente ao ver seu amigo se portar como um ladino.
Mas Uron a surpreende com seu tom imponente de voz dizendo: - Deixe ele Lara, não gostei nada desse velho. Seu olhar e seu jeito de agir. Ele poderia trair a mãe por dinheiro. Não coloque esse anel no dedo Lara, até podermos identificá-lo.
- Hei, veja o que eu achei. – Panthro levanta um pergaminho onde se encontra um mapa contendo a cidade de Mindway e a estrada até a cidade de Loreã e no meio das colinas uma grande seta apontando uma caverna na região.
- Guarde isso. Podemos verificar mais tarde sobre o que se trata. – Diz Uron.

O tempo passa e o velho não retorna. Uron se levanta e diz: - Não falei Lara. Aquele velho deve estar informando algum espião de Tukemon (2) sobre a nossa presença aqui, acho melhor irmos embora.
- Calma Uron. Vamos sair para procura-lo, para depois julgar, tudo bem?
Os quatro se levantam e saem da tenda. Golias continuava sentado do lado de fora como se nada houvesse acontecido. Todos se assustam ao saber que Golias não havia visto ninguém sair da tenda e já estava ficando entediado em esperar.
Eles procuraram por horas o velho e o garoto, mas não encontraram ninguém. Nem rastro eles haviam deixado. Rapidamente eles decidem deixar a cidade e partir numa longa viagem ao reino Dranville, onde se encontra a cidade Mindway.

2 - Lorde Regente do reino dos Mortos. Para muitos a encarnação de Wislow (o Deus da Morte).